Domingo, Junho 16, 2013

Faz hoje dezassete anos




























Completam-se 17 anos sobre a data em que David Mourão Ferreira nos deixou.

Recordemo-lo num brevíssimo poema de amor e de erotismo, tão ao seu jeito.



PELE
 
Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele
 
 
David Mourão Ferreira
Do Tempo ao Coração, 1966



Quinta-feira, Junho 13, 2013

Os mais vistos de sempre (II)




Um dos "posts" mais vistos de sempre no Local & Blogal foi publicado em 13 de Junho de 2005 e dizia assim:


Santos Populares
Santo António, Silves, © António Baeta Oliveira
 
Estão aí os Santos Populares! É tempo de Santo António, prenúncio do Verão. As ruas da baixa comercial da minha terra estão engalanadas, em ar de festa, e as esplanadas começam a agitar-se.
 
 
Marchas populares, Silves, Junho 2005, © António Baeta Oliveira
 
 
 
As marchas populares, a noite passada, com o particular empenhamento da 3ª idade, deixaram no ar o sentimento de algum carinho, mas destoaram com o seu ar de marcha lisboeta, solicitando o sacudir da anca e o bater do pé num ritmo serôdio, diria mesmo decadente, fora de época, a contratempo.

 
 
 
Fui de novo a "O GRÉS", um já extinto jornal em que colaborei, edição de Julho de 2000, rebuscar um texto onde percorria as ruas da minha memória por esta altura do ano, numa toada de evocação, bem ao ritmo das marchas populares, de sabor a passado inconsequente.
 
Cá está ele:

  • Nunca mais vi tal coisa!

    Não sei se se deixou de usar, se se teria esgotado ou, simplesmente, se a minha recordação me engana. O facto é que nunca mais lhe pus a vista em cima, ou melhor dizendo, o sapato.

    Refiro-me a um saibro avermelhado, suficientemente grosso para não fazer pó e suficientemente fino para não sujar o pé. Era com este tipo de saibro que se cobria o piso da primeira parte do jardim (Cancela de Abreu), pois que, a seguir ao coreto, logo depois da porta de entrada para a esplanada do cinema, o piso era de tipo diferente. Era deste saibro, também, o piso do Largo dos Bombeiros, na actual Praça do Município, frente aos Paços do Concelho. O curioso é que só me lembro deste saibro vermelho naquela Praça, quando começavam as Festas dos Bombeiros, pois que até essa data não tenho a ideia de que o piso fosse assim.

    Deixemos estas voltinhas em torno da memória, que todos sabemos ser altamente enganadora e fixemo-nos no Largo dos Bombeiros, em plena época dos Santos Populares. Uma roda gigante, a tômbola, imperava ao centro, ou então era tão importante que parecia central. Compravam-se os bilhetes e aguardava-se a saída do nosso número para obter uma modesta prendinha, que nos enchia de satisfação; não era como agora, onde há de tudo no supermercado. Tábuas corridas serviam de mesas ou se, mais baixas, de cadeiras e ficavam repletas de pratos de caracóis. Iam lá todos, não faltava ninguém. Nenhuma telenovela nos prendia em casa, a deixar a vida a correr lá fora.

    (...)




Segunda-feira, Junho 10, 2013

Silves n'Os Lusíadas



Hoje é Dia de Camões



Fui buscar a este mesmo blogue um "post" com data de 8 de Junho de 2004, donde transcrevi quatro estrofes dos Lusíadas que se referem à nossa cidade - SILVES.

Elas aqui estão.


Do Canto III, estrofes 86 - 88:
  • (...)
    Despois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o Bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército, em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, co a gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    Mas a fermosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assi como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado, Silves toma
    E o bravo morador destrui e doma.
    (...)

Há ainda uma outra referência no Canto VIII, estrofe 26:
  • (...)
    Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha
    Silves, que ele ganhou com força ingente:
    É Dom Paio Correia, cuja manha
    E grande esforço faz enveja à gente.
    Mas não passes os três que em França e Espanha
    Se fazem conhecer perpètuamente
    Em desafios, justas e tornéus,
    Nelas deixando públicos troféus.
    (...)

Notas (da edição):
86.3-4 “A cidade de Silves tem cercado”: com o auxílio da “Germânica armada” (flamengos e alemães) que formou a Terceira Cruzada (1189-1192) os Portugueses atacaram Silves; “Cujos campos o Bárbaro lavrava”; o Bárbaro é o Muçulmano.
87.2-5 “O roxo Federico, ...”: Frederico I, imperador da Alemanha (1123-1190), o Barba-Roxa ou Barba-Ruiva; “Quando Guido, co a gente em sede acesa”: Guido de Lusignan, último rei de Jerusalém, rendeu-se a Saladino, sultão do Egipto e da Síria, porque as suas tropas morriam de sede. A batalha de Tiberíade terminou pela captura de Guido.
88.1-4 “Mas a fermosa armada, ... / Já que em serviço vai do santo Marte”: a fermosa armada quis ajudar Sancho porque ia pelejar na Guerra Santa.
Ort.: fermosa (por formosa).

26.1-8 “Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha / Silves, ...”: por meio de cilada. Desviando o governador de Silves para Paderne e indo por caminho desviado, foi lançar-se sobre Silves, tomando todas as portas da cidade e impedindo as forças do governador de entrarem e ele próprio (v. Rui de Pina, Cr. de D. Afonso III),, cap. IX); “Mas não passes os três que em França e Espanha”: Gonçalo Rodrigues Ribeiro, Vasco Anes e Fernando Martins de Santarém, que em tempo de D. Afonso IV andaram como cavaleiros andantes em justas e torneios (v. Rui de Pina, Cr. de D. Afonso IV, caps. XIV a XVI).
Ort.: enveja (por inveja); tornéus, por causa da rima.



Quinta-feira, Junho 06, 2013

Voltar à serra





Foto batida a partir da açoteia de um amigo, em Salir, por ocasião do Dia da Espiga - 2013


Voltar à serra.
 
Deslumbrar-me com a variedade das tonalidades do verde, com a cor da terra, com o alvo casario marcado pelo colorido dos telhados, com o cenário de fundo das montanhas a lembrar esse outro mundo onde só se atreviam os almocreves, aqui, tão na proximidade da Rocha de Pena.
 
Na povoação, a festa da Quinta-feira da Espiga.
 
Os velhos vestidos a rigor, com aquela autenticidade das jaquetas, que já não vemos nas cidades, e as velhas com suas roupas escuras, com um ou outro apontamento de cor e o molho de espiga na mão, passeando, cumprimentando, rindo-se dos dichotes de uns e de outros.

Os mais novos, os rostos marcados pelo sol, as roupagens pretensamente citadinas, "mini" na mão, aguardando o concerto que se seguirá no grande palco cheio de luzes, a projetar a quimera do refrão romântico que o cantor de "charme" fará passar de boca em boca.
 
Hoje é dia de alegria. O trabalho, se o houver, é para amanhã.
 
 
 

 

Segunda-feira, Junho 03, 2013

Memórias do blogue (II)



Este blogue irá cumprir dez anos no decurso deste ano de 2013.

Proponho-me trazer aqui, de vez em quando, alguns dos meus textos de 2003 menos marcados pelo tempo.


Assim... suspenso...


Foto batida em Armação de Pêra, em Setembro de 2003


... como  a pequena gota.

Quieta, imponderável, desligada da onda mãe, ausente, incomunicável, presa num momento virtual.


Quinta-feira, Maio 30, 2013

Património silvense (III)




Arte Nova em Silves


Este edifício, no cruzamento da Rua 5 de Outubro com a Travessa do mesmo nome, do lado direito de quem sobe para o Largo do Município, é um edifício singular.

Trata-se de um exemplar, único em Silves,  da corrente estética que vigorou dos finais de oitocentos a início de novecentos, designada como Arte Nova - Art Nouveau - com particular expressão na arquitetura, na decoração de interiores e no mobiliário.
 
 
 
 
É o seu solário, o elemento que melhor documenta essa opção estética.
 
 
  
 
Em conversa com os atuais proprietários e anteriores residentes não me foi possível saber o ano em que se erigiu este edifício, nem o nome do seu primeiro proprietário.
 
Pelas diferentes características que apresenta em relação a outros prédios oitocentistas da mesma rua, leva-me a situar a sua construção como mais tardia, talvez durante o primeiro quartel do séc. XX.
 
Aqui viveu o Dr. Nobre de Oliveira, médico, de boa memória.

Hoje é propriedade da Família Guerreiro, que detém a farmácia com o mesmo nome no rés-do-chão do edifício.
 
  O Dr. Guerreiro, já falecido, farmacêutico e proprietário deste prédio, usou de todo o seu cuidado nos trabalhos de restauro, nomeadamente no belo friso de azulejos coloridos, tendo mandado produzir alguns novos que houve necessidade de repor, pois a série já se encontrava obviamente esgotada ao fim de tantos anos.
 

Aqui deixo um pormenor do friso.
 
Este prédio é um dos mais elegantes e dos melhor conservados desta rua, que tem, pelo menos no seu primeiro troço, alguns dos mais característicos edifícios da cidade.
 
 
 


Segunda-feira, Maio 27, 2013

Um poema de Francisco José Viegas























     As crianças adoecem no Inverno,
     tossem de noite,
     morres por elas nesses momentos
     em que precisam de ti.

     Vigias o seu sono,
     entregas o teu, despertas com facilidade,
     olhas uma a uma as horas que passam
     como se todas as crianças nascessem no Inverno.


Francisco José Viegas
O Puro e o Impuro, 2003